quinta-feira, 4 de agosto de 2011

4 Cheiro de saudade

Que cheiro tinha a sua: Café ou sabonete?
A minha tem cheiro de terra. Cheiro de mato. De chás que são capazes de curar joelho ralado, coração partido e até câncer dos brabos.
Sempre com as mãos sujas e unhas curtas, colhendo, plantando, descascando limões.
Sempre sorrindo, quando chegávamos com nossa malinha para passar o fim de semana.
A casa grande, tinha cheiro de vó. De pó. De velho. Das lembranças que ela guardou sem gastar. Das roupas bonitas que nunca usou. A casa tinha cheiro de canto sem dono, onde todos podiam sentar, comer, correr na escada de caracol...
A estante lotada de livros por ela nunca lidos, mas ali, completamente disponíveis para os netos folhearem mesmo sem saber ler. Minha avó mal sabe ler, mas escreve. Não só Escreve, Foi escrita como um grandioso livro: Um livro onde se conhece filosofia, medicina, psicologia, teologia e sociologia.
Minha avó é vida, pura vida! Por mais que a cada encontro eu veja seus ombros curvarem, e hoje eu saiba que ela não pode mais se abaixar para passar saliva nos meus joelhos rachados nas brincadeiras de criança, a vejo ali, como Vida, Pura Vida! Mesmo que eu a veja diminuir, encolher, ela é Vida, Pura Vida.
Sei que a morte a tem rondado, como um predador silencioso. E lamento profundamente que nada possa ser feito. Aí, me lembro das tantas avós, com cheiro de café, sabonete, terra, ou tempero que já deixaram em seus netos a saudade do olfato.
Lembro das avós que dormiram para sempre, com seus terços na mão. Lembro das avós que fecharam seus olhos com bíblias no peito. Lembro da minha avó, da oração de São Francisco que rezamos juntas tantas vezes, enquanto eu pedia: “Fazei de mim instrumento de vossa Paz” e ela segurando o terço e de joelhos dobrados pedia por mim.
Vó, hoje seus joelhos não se dobram mais. Sua mão não trabalha mais a terra, mas os seus Chás e os limões ainda são capazes de curar quase tudo.
E a oração de São Francisco, pendurada na parede do seu quarto, está sempre guardada em meu coração.
Hoje eu pedi para Que eu possa pentear-lhe os cabelos grisalhos muitas vezes, trançando-os ou prendendo-os num coque baixo, enquanto você dedilha as contas do rosário e pede para que eu seja um instrumento de Paz, nesses dias de Guerra que teus chás já não podem curar.
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