sexta-feira, 15 de julho de 2011

4 Calada e em paz

Nunca fui foda. Nunca fui a boazona da turma, chefe da gangue do kisuco.
Eu era a garota que sentava no fundão. Quietinha, mas que passava cola. Gente boa. Aquele tipo que todo mundo gosta, mas que ninguém convida pra nada. A garota que se calava quando o assunto era defender-se de pequenas injustiças, mas que chorava na aula de história ao pensar nos escravos que aqui aportaram em navios negreiros, tinha crise de nervos ao ver o colega de turma sendo humilhado pela professora ditadora e emocionava-se com pequenas demonstrações de afeto.
Sempre fui a tola. A idiotinha. A nerd que passava mais tempo na biblioteca do que na quadra de esportes.
Não obtinha vitórias. Não era a malandrinha que paquerava no recreio, nem a melhor aluna da turma. Era muda. Podia entrar ou sair de grupos com a mesma facilidade que o ar entra pelas frestas de uma casa.
Evitava qualquer coisa que pudesse me indispor com professores e colegas. Evitava qualquer coisa que fizesse meus pais envergonhar-se de mim. Achava que ser como eu era, já era vergonha demais.
Não queria que olhassem pra mim, Porque não sei lidar com os olhares, com aplausos e críticas.
Certa vez, numa partida de futebol, me lançaram uma bola e eu bati a minha cara com tanta força na bola que desmaiei. Nesse dia, descobri que meus colegas sabiam meu nome, porque gritavam: “Deise, Você fez um Gol!” o único da minha carreira esportiva. Naquela dia, as pessoas me olharam. Gostei de ser vista. Gostei de ouvir meu nome saindo de várias bocas, em vários sons. O prazer promovido pela vaidade.
Mas aquilo tinha sido um incidente. Não era para ter acontecido. Muitas coisas não deviam ter acontecido.
Eu quis continuar aparecendo, mas não soube. Nunca soube.
Apareci pelos motivos errados, sempre com uma bola enfiada na cara, me causando um desmaio. Uma dor.
Talvez por isso eu ainda tenha vontade de aparecer, vez ou outra. Conte piadas sem graça, ria de mim mesma, mas tenho medo da bola rebatida.
Não tomo partido, não tomo decisões, não exponho minha opinião.
Penso. Penso o tempo todo. Mas são meus pensamentos e eles não são tão importantes como os meus sentimentos.Não precisam ser partilhados, embora existam e gritem desesperados por liberdade.
Não quero deixar minha cara disponível para os que chutam a bola de volta, mesmo que isso resulte em pessoas exaltadas gritando meu nome.
Eu só concordo, porque tem tanta coisa que eu realmente adoro, tanta coisa que eu realmente acho importante, tem tanta coisa que me faz ter vontade de voltar pra biblioteca, e concordar, com cada um e com todos é meu modo de fazer a paz.
A paz que eu sinto enquanto finjo não ver que vivem muito mais os que estão no ginásio e não no silêncio da biblioteca.

4 comentários:

Luciana disse...

Reflexivo...Como sempre me vi em muito que li aqui.
Talvez vc veja hoje com uma pequena tristeza tudo que se passou.Mais saiba,isso te transformou em quem vc é hoje, e eu aposto que vc é uma pessoa honesta,forte,sincera.
Graças a Deus que as coisas realmente importantes,que te fazem ter paz,ser feliz existem.E sabe do que mais?Só elas devem importar!!

Beijos

Helen Araujo disse...

E se essa paz na verdade for medo? Muita vezes é no "ginásio" que há liberdade para ser de verdade.

Anônimo disse...

Desculpe minha ausência de sua vida, de seu blog e de suas palavras...e todas as vezes eu reencontro você depositando sua alma nessas palavras tecidas com sinceridade e zelo. Eu adoraria dizer que nunca mais ficaria sumida, mas infelizmente é algo que não posso cumprir...
Além disso, gosto de vir, ler, sentir e deixar as palavras tentarem expressar o que há aqui, dentro deste peito que insistir em sonhar de vez em quando...assim, tão naturalmente.

Trecho lindo:

"...Penso. Penso o tempo todo. Mas são meus pensamentos e eles não são tão importantes como os meus sentimentos.Não precisam ser partilhados, embora existam e gritem desesperados por liberdade."

Sempre linda!

=)
Com amor, Sil!

Guiga disse...

Li isso e me pergunto: "Quando sai um livro seu?" :)


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Oi? Você vem sempre aqui?

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